Eu não sabia disso por muito tempo, mas existe muita gente que detesta livros de autoajuda.
E, com o tempo, comecei a entender o motivo, em algum ponto, a autoajuda parou de ajudar, ou, pelo menos, parou de ajudar da forma que prometia.
Quanto mais a gente consome, mais parece que nunca é suficiente. Sempre existe mais um livro para ler, mais um vídeo para assistir, mais um curso para começar, mais um método para testar. E, mesmo assim, a sensação de mudança não chega.
É aí que nasceu em mim uma dúvida: será que o problema somos nós? Será que não estamos tentando o suficiente?
Ou será que existe algo errado na forma como estamos usando a autoajuda?
Quando a autoajuda vira excesso
Hoje, vivemos mergulhadas em conteúdo. Tudo é rápido, editado, organizado para caber em poucos minutos. E mesmo quando a mensagem é gentil, inspiradora ou acolhedora, existe uma ideia silenciosa que vai se repetindo: ainda falta algo em você. Ainda não é suficiente. Ainda não chegou lá.
Esse é o grande paradoxo.
A autoajuda promete libertar, mas muitas vezes produz o efeito contrário: mais comparação, mais inadequação, mais sensação de estar sempre atrás.
Consumir esse tipo de conteúdo também cria uma falsa sensação de autocuidado. Dá a impressão de que estamos fazendo algo por nós mesmas, investindo no nosso crescimento. E, sim, há valor nisso. O problema começa quando esse movimento fica apenas do lado de fora.
Você lê, assiste, escuta… mas internamente, tudo permanece igual.
Não por falta de vontade, nem por falta de capacidade, mas porque informação, sozinha, não transforma. Informação sem prática vira mais um peso para carregar.
Talvez o ponto não seja consumir mais, talvez seja organizar e aplicar aquilo que você já sabe, mas deixou pegando poeira.
O que quase nunca é mostrado
A mudança exige coisas que quase nunca aparecem nos conteúdos bonitos: frustração, repetição, erro e tempo. Exige aceitar que o processo não é linear, que não é rápido e que não tem estética perfeita.
E isso entra em conflito direto com a lógica que aprendemos a viver: produtividade constante, resultados visíveis, sensação imediata de melhora. A vida real, porém, funciona de outro jeito. Ela pede presença e prática.
É sobre isso que eu falo com mais profundidade no episódio do podcast Acabe com Aqueles Dias:
EP. 39 | Por que nada muda mesmo consumindo tanta autoajuda?
Nesse episódio, aprofundo essa conversa sobre excesso de informação, falsa sensação de autocuidado e o ponto exato em que aprender deixa de ajudar e começa a nos afastar da mudança.
Menos conteúdo, mais prática
A transformação começa quando a informação vira experiência vivida. Quando você tenta aplicar, erra, ajusta, repete e, aos poucos, integra. Sem grandes viradas. Geralmente começando pequeno.
Um hábito por vez. Uma ciclo por vez. Um ajuste que caiba na sua vida agora.
Talvez o convite mais honesto não seja buscar mais respostas, mas sentar com as que você já tem. Se perguntar, com consciência: o que eu já sei, mas ainda não faço? O que eu consumo para me sentir melhor, mas evito aplicar no dia a dia?
Essas perguntas incomodam, e isso é bom. O desconforto certo não é para paralisar, mas para movimentar.
Talvez seja hora de parar de correr atrás de mais conteúdo achando que algo ainda falta. O momento agora pede outra coisa: aplicar aquilo que você já aprendeu, mas foi deixando para depois.
É assim, quase sem alarde, que a mudança começa.
Com leveza,
Fla Carrilho.